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(Crítica) Assassinos da Lua das Flores - A raça do dinheiro
Rute Ferreira

(Crítica) Assassinos da Lua das Flores - A raça do dinheiro

O filme "Assassinos da Lua das Flores", cujo título original é "Killers of the Flower Moon" e que tem como realizador, o consagrado Martin Scorsese, é baseado no livro homónimo de David Grann. Esta obra cinematográfica mergulha nos eventos reais do povo Osage, um dos capítulos mais sombrios da história dos Estados Unidos, que envolveu assassinatos e conspirações contra membros da nação indígena Osage no início do século XX.

A história deste filme incide sobre essa série de mortes misteriosas entre os nativos americanos Osage, que ficaram ricos após encontrarem reservas de petróleo nas suas terras. o enredo desta longa-metragem desenvolve-se  numa teia complexa de corrupção, ganância e racismo, revelando camadas profundas de injustiça e violência sobre o próprio povo e não só.

O "Assassinos da Lua das Flores" apresenta-se no fundo, como uma análise contundente da dinâmica social e racial nos Estados Unidos durante a primeira metade do século XX. Ao explorar os crimes sistemáticos aos povos indígenas, o filme confronta o público com questões de injustiça, poder e abusos privilégio. Scorsese retrata não só os eventos históricos de forma precisa, mas também os contextualiza dentro do panorama mais amplo da opressão e da luta por autonomia dos povos indígenas.

Um dos pontos fortes do filme reside na complexidade das personagens principais. No caso de Ernest Burkhart, interpretado de forma magistral por Leonardo DiCaprio, falamos de um homem moralmente ambíguo, cujas motivações e convicções são postas à prova ao longo da narrativa. Da mesma forma, os membros da nação Osage são retratados como indivíduos multifacetados, lutando não apenas contra os perigos externos, mas também contra os conflitos internos gerados pelo trauma, pela injustiça e pela crença das “velhas” tradições.

Como já se esperava de um mestre do cinema como Martin Scorsese, a realização de "Assassinos da Lua das Flores" é excelente. Cada cena é meticulosamente construída para transmitir não apenas a narrativa, mas também as emoções e os temas que lhe são subjacentes. A diversidade de cores, os enquadramentos e a edição colaboram para criar uma atmosfera envolvente e opressiva, que transporta os espectadores para a década de 1920.

Claro que o filme levanta uma série de questões morais e éticas que ressoam profundamente com situações bem actuais da nossa sociedade (ainda). Desde a natureza da justiça até aos limites da ganância e da corrupção.

O "Assassinos da Lua das Flores" desafia o público a confrontar-se com as contradições fundamentais da sociedade.

A história pode servir também para mostrar que, apesar dos avanços sociais e tecnológicos, os mesmos padrões de opressão e exploração podem persistir, revelando apenas ganância e obsessão pelo poder.

"Assassinos da Lua das Flores" é uma obra-prima  que suscita a quem a vê uma reflexão profunda e comovente da condição humana. A envolvência da sua narrativa, a complexidade das suas personagens  e o intuito de Scorsese, em destacar no filme um testemunho poderoso da luta pela justiça e pela dignidade perante a  adversidade, relatando a força do povo indígena. E não como habitualmente vemos, salientando antes as suas fraquezas, torna este filme peculiar e único.

É uma obra inspiradora, que chega até aos corações mais frios.

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Críticas