Fracassos ou tropeções para caminhos inovadores? Produtos Apple que não vingaram

Fracassos ou tropeções para caminhos inovadores? Produtos Apple que não vingaram

O caminho da Apple até onde ela está agora não foi apenas repleto de sucesso, mas também de fracassos. Eis alguns produtos Apple que não vingaram.

Gonçalo Antunes de Oliveira
∙ 10 minutos de leitura

O artigo que estão a ler neste momento poderá estar a ser visto num iMac, num iPad ou num iPhone. Aparelhos que concentram tudo o que poderão necessitar para trabalhar ou para descontrair. Mas nem sempre foi assim. Em tempos que já foram, também dava trabalho ir buscar um livro à estante, alugar um filme ao clube de vídeo ou avançar a cassete para ouvir a música que mais nos satisfizesse.

Assim o ditou a evolução tecnológica, que permitiu a miniaturização e mesmo o desaparecimento dos suportes físicos, transformando tudo o que consumimos em ondas que vagueiam pelo ar até aos nossos equipamentos a 3, 4 ou agora a 5G.

Para quem tem mais uns aninhos, olhar para as prateleiras da FNAC desde a sua abertura em 1997 era bastante elucidativo. O mundo muda, e com ele o mercado. Se no início as velhinhas cassetes VHS ocupavam estantes infinitas, com o correr do tempo, aquela pequena secção dos DVD começou a expandir-se, até que já não se viam VHS. Os CDs acabaram com o vinil e com as cassetes áudio. Não deixa por outro lado de ser interessante que o formato Betamax tinha uma qualidade bem melhor que o VHS. Então porque é que ganhou o VHS? Porque os grandes players do mercado lutaram entre si.

Não ganhou necessariamente o melhor, mas sim aquele que reuniu melhores condições para a colocação destes formatos no mercado. Não se pode lançar apenas uma cassete ou um DVD. Tem que haver forma de o reproduzir num aparelho que não seja apenas da marca que o lançou, e também empresas que apoiem a sua distribuição. Já agora, os preços mais acessíveis ao grande público também contam bastante, não é? E no fim de contas, ganha sempre quem gera mais lucro.

E porquê toda esta introdução? Porque nem sempre quem tem os melhores produtos consegue penetrar no mercado. Porque muitas vezes, para se conseguir assegurar uma qualidade contínua durante décadas, só uma percentagem mínima de tentativas-erro é conhecida pelo publico em geral.

A verdade é que para que vocês e eu possamos estar a interagir neste artigo, foram muitos os protótipos falhados, tantas as ideias riscadas, que nem sequer conseguimos imaginar o que ficou pelo caminho. E sim, há vezes em que só quem inova se consegue destacar. Inovar é estar à frente, é quase ter que explicar por que motivo alguém necessita de possuir este ou aquele produto. É também preciso ter coragem para criar mudança.

E a Apple, como todos sabemos, é prolífica em mudar o mundo. Vezes e vezes sem conta. Mas também a Apple tem coisas que correram mal. Umas porque estavam à frente do seu tempo (e por isso incompreendidas) outras porque o mercado simplesmente já funcionava com produtos inferiores, mas mais facilmente massificáveis, principalmente pela sua acessibilidade em termos de preço de venda ao público. E, claro, também porque simplesmente o conceito original até podia ter alguma lógica para quem o criou, mas confrontado com a realidade, acabou por ter sido mesmo uma má ideia.

E é precisamente sobre seis produtos da Apple que não vingaram de que vos vou falar. Antes de mais, há que ter em conta que para cinco destes, é preciso viajar no tempo até à saudosa década de 90 do século passado. Se estes anos abalroaram brilhantemente a música em todo o mundo, não nos podemos esquecer que também nestes tempos a maioria dos jovens portugueses tomaram os seus primeiros contactos com PCs, consolas de jogos, leitores de CD, telemóveis e Internet! Muito para processar, não é?

Vamos então seguir uma linha cronológica, que ajuda sempre a contextualizar, começando pela Macintosh TV em 1993.

Apple Macintosh TV (1993)

A televisão era nesta altura o centro das nossas atenções. Os computadores que tínhamos na altura como os ZX Spectrum ou Commodore Amiga (que nos acompanhavam desde meados dos anos 80), quer as consolas de jogos, tudo girava em torno das televisões CRT, algumas ainda sem controlo remoto!

Este produto tinha o sistema operativo de um computador normal da Apple, um teclado, um rato... bem: na realidade era um computador com uma televisão Sony Trinitron (das melhores que havia naquela altura) incorporada. Tinha realmente o aspecto que todos queríamos: tudo em preto, tudo num único corpo. A Apple à frente do seu tempo. E quando digo “tudo o que queríamos”, é com base naquelas séries e filmes de ficção científica que tínhamos que esperar para ver todos os Domingos ao fim da tarde, ou às Quartas à noite na RTP 1. Claro que também foi dos primeiros computadores a ter um CD-ROM. O nome dizia literalmente tudo: era um Macintosh e era uma televisão! E Sony! E na qual até se podiam ligar consolas!

Na verdade, tratava-se simplesmente de mudar o input como se faz hoje em dia, só que, em 1993, quando foi lançada, tudo isto era novidade. E como era um all-in-one caro, o mundo, não estava ainda preparado. Por isso infelizmente não vingou, e quatro meses depois do seu lançamento, com apenas 10.000 unidades vendidas, foi descontinuada. A Apple comercializou mais tarde uma placa de vídeo para instalar nos computadores, que na prática acabou por conferir as mesmas funcionalidades que a Macintosh TV. Embora mais viável, não era bem a mesma coisa.

Considerando hoje a Apple TV, é notória a diferença de rumo tomada pela marca. Evidentemente que todos gostaríamos de ter uma televisão na verdadeira acepção da palavra, mas notem: um Pro Display XDR de 32 polegadas com vidro de nanotextura ronda actualmente os €6.600,00. Tendo em conta que a dimensão comummente aceite como mais adequada se inicia nas 43 polegadas, colocar-lhe um processador M1 com, já agora, uma câmara Facetime HD 1080p, microfones, colunas... bom, o é melhor parar por aqui, porque é só fazer as contas.

Apple Macintosh TV (1993)
Apple Macintosh TV (1993)

Apple Newton MessagePad (1993)

Ainda durante este ano de 1993, foi lançado o Apple Newton, vulgo PDA, ou talvez arriscar-me-ei a dizer, o Bisavô do iPad. Na verdade, logo abaixo do logotipo da maçã lia-se “MessagePad”. Vinha com uma caneta Stylus (Bisavó do Apple Pencil?). Para além de um transmissor por infravermelhos (que permitia a comunicação de curta distância com outros aparelhos: Bisavô do Bluetooth?), podia ainda ligar-se a um teclado. Hum... isto está mesmo a parecer-me um iPad Pro, mas isso não agora interessa nada.

Para funcionar utilizavam-se quatro pilhas AA convencionais. Sim! Para quê baterias que acabariam por ficar viciadas? Embora com um écran em escala de cinza, a sua resolução era de 480x320, curiosamente a mesma que a do primeiro iPhone. E precisamente por ser um ancião, não se podia esperar que funcionasse na perfeição. A caneta controlava tudo no écran, mas já tinha uma espécie de inteligência artificial que aprendia à medida que nosso modo de escrever era convertido em texto (Bisavó da Siri?). Só que não muito bem.

Enfim, e quando o Steve Jobs voltou, decretou o seu desaparecimento em 1998. Não estava simplesmente à altura dos seus padrões. Mas para quem tenha curiosidade, há ainda muita gente por este mundo fora a utilizar e a discutir sobre este Newton. Podes consultar esse fórum aqui.

Apple Newton MessagePad (1993)
Apple Newton MessagePad (1993)

Apple Pippin (1995)

Avancemos três anos para a Apple Pippin. Esta consola de jogos tinha tudo para ganhar: podia ser jogada em qualquer parte do mundo (sem restrições de região quer nos CDs, quer nos sistemas de transmissão). Podia ser ligada a uma televisão (em sistema PAL ou NTSC) ou a um monitor. Terá sido a primeira consola de sempre a ter um acessório para ligação à Internet.

Resultante de uma parceria entre a Apple e a Bandai (a super-marca de brinquedos japonesa), num período em que o Steve Jobs ainda não tinha regressado, a ideia era criar um produto muito acima da concorrência, até porque era em si um computador com um sistema operativo Apple (os jogos eram compatíveis com os seus computadores), cujo comando (chamado AppleJack) tinha uma trackball no centro, que servia de rato para aceder aos conteúdos do écran inicial.

Mas sendo tudo isto muito bonito e sofisticado, há que lembrar que a partir de 1989, nomes como Game Boy, Nintendo Entertainment System (NES), Sega Master System, Sega Megadrive eram tidos como um gigantesco passo relativamente aos ZX Spectrum de que falei acima e aos primeiros PCs em Portugal. Por outro lado, o salto das cassetes para carregar jogos para as disquetes, e de repente (valha-nos Deus!) para CD, ocorreu de modo relativamente acelerado, gerando a sensação de obsolescência imediata.

Ou seja, no espaço de aproximadamente cinco anos, toda a gente estava convertida a um novo e mais rápido modo de jogar (e com monitores a cores!). E chegou a Internet a velocidades... “estonteantes”... de tanto esperar. Mas ainda assim sentia-se o fervor do nascimento de um universo mais uma vez visto em filmes de ficção científica da altura.

Pois então, com o surgimento da PlayStation e da Nintendo 64 (a Sega Megadrive tinha também o Sega CD), e tal como vos disse acima, o mercado, habituado a estas marcas, mais baratas e aparentemente mais eficientes, não perdoou o preço exorbitante da Pippin. Não compreendeu também que este produto era muito mais do que uma consola. Mas o facto é que naquela época, o conceito de multitasking, sobretudo num contexto de lazer, ainda não fazia grande sentido. Finalmente, também não ajudaram os imensos defeitos de fabrico, quer da consola, quer dos seus jogos.

E pronto, Steve Jobs regressou, a Apple ressuscitou, e a ordem de término deste caminho foi dada. Um quarto de século depois, vamos acompanhar a evolução da Apple Arcade e tentar perceber se a história se repetirá, ou se a Apple aprendeu com os seus erros. É como vos disse: tentativa-erro. Só assim se consegue inovar.

Apple Pippin (1995)
Apple Pippin (1995)

Twentieth Anniversary Macintosh (1997)

No seu vigésimo aniversário, a Apple decidiu comemorar a efeméride com o lançamento do Twentieth Anniversary Macintosh. Tal como ainda há pouco referi, então façam lá outra vez as contas. Em 1997, este produto custava cerca de 7.500,00 dólares! Mas há que ver que se tratava de uma edição de luxo, pois senão vejamos: teclado com sistema de repouso em couro e trackpad incluído (e amovível), sistema de som Bose (duas colunas ao longo de toda a lateral do monitor revestidas a tecido e subwoofer), e com televisão e rádio integrados. Dotado de um monitor LCD (adeus ao CRT) e de um leitor de CD vertical, todo este aparelho era praticamente uma Macintosh TV (com rádio), mas “hiper-apetrechado” com materiais áudio e vídeo topo de gama. Interessante é também o facto de o som de arranque ser diferente, no sentido de criar mais uma distinção entre este e os restantes computadores das linhas convencionais da Apple.

Não me quero repetir, mas lá estava a Apple a cunhar, antes do seu tempo, a ideia de um sistema de entretenimento completo. O próprio John Ive disse na altura que esta foi uma imensa aposta no design. E foi uma boa aposta, uma vez que acabou por definir toda a imagem dos futuros lançamentos Apple. Um ano volvido, face à fraquíssima prestação nas vendas, os preços foram drasticamente reduzidos até à sua descontinuação.

20th Anniversary Macintosh (1997)
20th Anniversary Macintosh (1997)

Apple Mouse USB (1998)

Este artigo já vai longo, mas certamente ainda se devem lembrar, quando falei na Pippin, que o seu comando chamava-se Apple Jack. O design tipo boomerang teve em consideração a ergonomia e adaptabilidade da mão do jogador ao controlo dos jogos. Não é claramente o caso de que vos vou falar agora: o famigerado Apple Mouse USB. Lançado em 1998, eu próprio utilizei vários exemplares.

No recentíssimo evento Spring Loaded, foram lançados nos novos iMac que, para além de tantas inovações fantásticas, trouxeram de volta a cor, uma característica absolutamente identitária da marca. Pois então, em 1998, os iMac também competiam com o arco-íris na sua paleta. E com eles (um computador dentro de um monitor com uma útil pega no topo que facilitava o transporte), ali estava este ratinho redondo, pequeno em tamanho e no seu cabo. Pois, sobre isto não há muito a dizer, a não ser voltar a um dos argumentos que propus na abertura: tentativa-erro. Tentaram, erraram, substituíram por melhor. Mas não deixa de ter piada lembrar-me de colegas que literalmente giravam este rato intuitivamente em movimentos repetitivos (e quase desesperados) para conseguir chegar aos cantos do desktop. Enfim, melhores dias claramente vieram.

Apple Mouse USB (1998)
Apple Mouse USB (1998)

Ping (2010)

E finalmente, para encerrar este rol de produtos de curta duração, passemos para o final da primeira década do século XXI. A ideia providencial de criar uma rede social para música: o Ping. Enfim, muita coisa estava a acontecer nesta altura e, por muito que o Steve Jobs achasse que este era o caminho, escapou-lhe ali qualquer coisa. Em Setembro de 2010, Jobs definiu o Ping como se “o Facebook e o Twitter se encontrassem com o iTunes”. Era possível seguir os nossos artistas preferidos, ter amigos com quem partilhar os nossos gostos musicais e, claro, ouvir e fazer download de conteúdos.

Bom, mas logo ali havia uma particularidade: o Ping era uma funcionalidade dentro do próprio iTunes, que já em si era um gestor do iPhone, do iPod e do iPad. Ah, e já agora, também podia lá ouvir e guardar os nossos Mp3! Rede social de música? Parece mesmo uma ideia óptima! Mas o MySpace foi o que foi, e no caso da Google +, mais genérica, também sabemos o resultado. O Ping funcionava em todos os dispositivos Apple, antes de tal transversalidade ocorrer nas restantes redes sociais.

Dois anos depois acabou por ser encerrado. Na prática acabou por não ter adesão. Mas felizes de nós hoje em dia que temos a Apple Music. E, vá lá, as redes sociais a que pertencemos são tantas, que nem sequer vale a pena profanar a sensação etérea de ouvir a música que mais nos apraz com partilhas, comentários e visionamentos de outros utilizadores. Há prazeres que devem ser só nossos, e a música é inexoravelmente um deles. Mas sim, se quiserem partilha-lha nas redes sociais, estejam à vontade, porque a Apple Music também o permite.

Apple Ping (2010)
Apple Ping (2010)

Bom, e com estes seis fracassos concluo este meu primeiro artigo no iFeed. Ficará para a reflexão de cada um. Fracassos ou inovações incompreendidas? Produtos magníficos a preços desequilibrados e inacessíveis para o mercado de massas? Erros de concepção que contribuíram para o nascimento de produtos e serviços sem os quais não imaginamos como seria o nosso dia-a-dia? Uma coisa é certa: quem não arrisca, não petisca. E a Apple vai continuando a dar o exemplo de que é melhor arriscar do que permanecer estático e vetado ao esquecimento.


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